O Saci e o eucalipto

Está cada vez mais difícil disfarçar, dissimular, enganar e corromper a população que sofre diretamente com a monocultura do eucalipto.

No meio de uma audiência pública na Câmara Municipal de São Luiz do Paraitinga – SP, no Vale do Paraíba, apareceu o Ditão Virgilio, trabalhador rural e morador local, com a poesia a seguir, de sua autoria.

São Luiz do Paraitinga é uma estância turística, cidade histórica, onde nasceu o hoje famoso “Dia do Saci”, todo 31 de outubro, para se contrapor ao “ralouim”. Daí a referência do Ditão. 

A poesia resume tudo o que se poderia dizer a respeito da monocultura do eucalipto:

1
Um dia fui passear
Lá no reino encantado
E em cima de um cupim
Eu vi o saci sentado
Com os olhos cheios d’água
Que há pouco tinha chorado
Então lhe perguntei
Por que estava desolado

2
Deu um rodamoinho
E ele me respondeu
Olha para as montanhas
Veja o que aconteceu
Plantaram uns paus compridos
Que depressa cresceram
Todos os bichos foram embora
E alguns até morreram
 
3
É o tal de eucalipto
Planta que não é daqui
Uma mata silenciosa
Que acabou com tudo ali
Os macacos foram embora
Até o mico e o sagüi
Que saudade do sabiá
Do sanhaço e o bem-te-vi
 
4
Esta planta suga a terra
As nascentes estão secando
Nossos rios caudalosos
Devagar vão se acabando
As fazendas destruídas
Pelas máquinas vão tombando
O caipira sem destino
Pra cidade está mudando

5
As casinhas da fazenda
Também foram derrubadas
Só tem árvores no lugar
Quase não serve pra nada
Ressecando nossa terra
Expulsando a passarada
Não tendo onde criar
Não alegra a madrugada
 
6
Os peixes estão morrendo
Com o veneno espalhado
Um tal de mata-mato
Que seca até a invernada
Dão veneno pras formigas
Que nunca é controlado
Tamanduás e os tatus
Quase foram exterminados
 
7
Já não tem fogão de lenha
Onde fumo ia buscar
Não tem mais o galinheiro
Onde eu ia brincar
Acabou-se o chiqueiro
Não tem porco pra engordar
Os caipiras vão embora
Por não ter onde morar
 
8
Não tem vacas leiteiras
Nem bezerros a berrar
Mesmo o cavalo alazão
Já não tem o que pastar
O galo já não canta
Quando o dia vai clarear
Se continuar assim
O Saci não vai agüentar 

9
Com a sombra desta árvore
As flores desapareceram
A juriti está calada
Não canta na capoeira
João-de-barro não faz casa
Pois não tem mais a paineira
O canarinho foi embora
Com o sabiá-laranjeira
 
10
Acabaram-se as algazarras
Das bonitas maritacas
Até mesmo garças brancas
Já ficaram muito fracas
Com esta falta de água
Também acabou a paca
O sertão está em silêncio
Com a praga que o ataca 

11
O gavião-carcará
Já não tem o que comer
O curiango não canta
Quando chega o escurecer
A coruja em desespero
Voou no amanhecer
Até mesmo a cascavel
Não está tendo o que fazer
 
12
Não tem mais o milharal
Crescendo lá na baixada
Por isso o inhambu
Não pia mais na palhada
As rolinhas muito tristes
Já não fazem revoada
Tico-tico já não pula
Lá no meio da estrada
 
13
A saracura-três-potes
No brejo não pode morar
Naçanica-bico-verde
Não tem inseto pra pegar
Pois sem água o brejo seca
E não tem nada para dar
Os bichos morrem de sede
No seu próprio habitat
 
14
No rio não tem mais bagre
Nem traíra nem piaba
Pois com a falta de fruta
Vem a fome e tudo acaba
Veneno na enxurrada
Matou o pé de goiaba
Acabou fruta silvestre
E sumiu a jabuticaba

15
Também já secou
O Corguinho o lugar
Morreram os lambaris
Já não tem o que pescar
Camarão de água doce
Não sei onde foi parar
Sapo, perereca e rã
Pararam de coaxar

16
Até a bela siriema
Cantou lá na cachoeira
Tentando avisar o homem
Pra parar com essa besteira
Estão matando a natureza
Com uma flecha certeira
Este mal não vai ter cura
Vai durar a vida inteira
 
17
Queimaram os paus podres
Onde o pica-pau faz ninho
No oco dessas madeiras
Onde nascia o filhotinho
As mamangavas sumiram
Foram embora de mansinho
Só tem cheiro de eucalipto
Espalhado no caminho

18
Até mesmo as abelhas
Conseguiram enganar
Dizendo que essa árvore
Muitas flores ia dar
Mas quando os botões
Começaram a desabrochar
Eles fazem a derrubada
Não deixam nada sobrar
 
19
O pobre do vaga-lume
Não tem luz na escuridão
Pois esses paus compridos
Ficam distantes do chão
Atrapalhando o seu vôo
Nesta grande imensidão
Mesmo nos taquaris
Pode não ter salvação
 
20
Sou Saci estou preocupado
Se acabar o bambu
Como é que eu vou criar
No meio do taquaruçu
É lá onde também mora
Aquele bando de jacu
E eles estão sumindo
Juntinho com o anu
 
21
Com um veneno forte
Acabaram com o varjão
A baixada só tem pau
Já não planta mais feijão
A nossa mata nativa
Não tem mais brotação
Com a sombra dessa árvore
Nada nasce neste chão
 
22
Também a onça-pintada
Jaguatirica e suçuarana
Estão morrendo de fome
E ainda levam a fama
Porque o veado-mateiro
Morreu por falta de grama
Se você pensa que foi ela
Aí é que você se engana
 
23
O bem-te-vi já não canta
Na copada do pinheiro
E o sanhaço azul
Não senta no pessegueiro
A sombra acabou com tudo
Matou o pé de coqueiro
Tapera de pau-a-pique
Plantaram até no terreiro
 
24
O caipira indo embora
Vai acabar sua cultura
Não sou contra o eucalipto
Mas sim a monocultura
Não comemos celulose
Nem essa madeira dura
É com sede de dinheiro
Que cometem essa loucura
 
25
Na comida caseira
Não tem frango caipira
O porquinho na panela
Torresmo que se admira
Não tendo mais abobreira
Também não tem cambuquira
Nem toucinho no fumeiro
Nem couve rasgada em tira

26
Homem da roça apertado
Vai morar na cidade
E trabalha com eucalipto
Contra sua vontade
De vez em quando lembra
Que tinha felicidade
Num canto chora escondido
Do sertão sente saudade
 
27
Até o vento é diferente
Mudou a vegetação
Diz que é reflorestamento
Mas é uma enganação
Porque logo cortam tudo
Pra celulose e carvão
Deixando a nossa terra
Uma grande devastação
 
28
Por enquanto dão emprego
Dizendo que vão ajudar
Não passa muito tempo
Pra tudo isso acabar
Deixam tudo destruído
E saem pra outro lugar
Fica pra trás a miséria
E a fome vai se espalhar
 
29
Até mesmo a capelinha
Onde o povo ia rezar
Foi fechada a porteira
Para não poderem entrar
Tentam acabar com a festa
Que é tradição do lugar
Se deixarem trocam por pau
Até os santos do altar
 
30
Me chamaram de malvado
Pela minha esperteza
Gosto de traquinagem
Não sou mau com certeza
O que quero é defender
A nossa maior riqueza
Eu sou filho dessa terra
Brigo pela natureza
 
31
Vou indo rapidamente
Girando cisco no vento
Se você não pensar em mim
Agora neste momento
De pensar que eu já existo
Para isto fique atento
Não sou filho da mentira
Criação do pensamento
 
32
Dê um grito de alerta
Peça para o povo ajudar
Não deixe o eucalipto
Com o sertão acabar
Este deserto verde
Pouco tem e nada dá
Sou da terra das palmeiras
Onde canta o sabiá

FIM 
(Ditão Virgilio – Publicada no “Estórias de Uma Perna Só – No. 19 – 13.08.2007 – São Luiz do Paraitinga – SP)

11 Respostas to “O Saci e o eucalipto”

  1. angelica Says:

    Ai que linda, eu nunca tinha lido inteira, parabéns para o escritor!

  2. Gláucia Says:

    Sabe gente, quanto mais conheço a cultura popular mais me encanto…
    Mais ainda quando é algo tão belo e profundo,
    Tão ingênuo e ao mesmo tempo tão consciente…
    Quando a gente lê, parece coisa do outro mundo
    Toca fundo lá no peito, faz a coisa ficar ainda mais urgente!

    Para todos os que lerem com os olhos e o coração, com a alma e a consciência deixo aqui também o meu recado:
    Ou todo mundo luta ou logo tudo terá acabado!!!

  3. tereza Says:

    Primeiramente tenho que parabenizar o Sr. Ditão Virgílio, pela sua capacidade de se referir ao eucalípto de forma tão carinhosa onde deixa claro seu profundo descontentamento quanto ao extermínio irresponsável e desrespeitoso do nosso querido EUCALÍPTO.
    nÃO é a toa que as pessoas estão deixando de morar em roças para virem morar nas cidades,afinal para que continuarem´lá, se o solo está
    se tornando fraco e os pastos já não são tão verdes?
    É de extrema falta de consciência do ser humano que estamos expostos
    às mudanças radicais de temperatura,e com certeza sofreremos as
    consequencias dessas atitudes irresponsáveis.
    Creio ser necessário concientizarmos o máximo possível de”seres humanos racionais” sobre essas devastações grosseiras e irresponsáveis para com o nosso querido PLANTA TERRA.
    Para finalizar de vez,parabenizo + uma vez esse poeta ilustre que merece todo o meu respeito,quem dera houvesse essa qualidade de amor à natureza em todos os homens desta terra?Com certeza desconheceríamos a frase: “SER HUMANO RACIONAL BURRO.”

  4. Jéssica Portes Says:

    verdade é muito lindo msm!!!!!!!!!!
    É importante que as pessoas saibam o quao é prejudicial o Eucalipto para natureza!!!!!!!!

  5. Everton Says:

    Não é preciso muito pra se expressar, nem de palavras bonitas, ou, portugues correto.
    Todas as palavras que contem nessa poesia, toda a rima no final…não vale nada diante a simplicidade e honestidade que foi expressa logo acima.
    Não é preciso muitos estudos para diferenciar o que é bom ou ruim para o mundo.
    Admiro muito que com toda essa simplicidade foi possivel passar toda a realidade de São Luiz do Paraitinga e acreditem, mesmo a verdade sendo tão descarada como está nesta poesia muita gente não entenderia e diria:” – Puxa que bonito o poema sobre o Saci”…

  6. Clara Says:

    Essa poesia é muito linda mesmo,emocionante!!Conheci o Ditão pessoalmente e ele declamando essa poesia foi muito lindo…
    Ainda mais,sendo o Saci o narrador desta triste historia,pois sempre dizem que ele é quem faz o mal!!Nesta poesia fica claro,o Saci como um defensor da natureza e um profundo conhecedor dela.Narrando todos os acontecimentos com muita tristeza e explicando claramente o que a monocultura do eucalipto é capaz de fazer com as pequenas comunidades.

  7. paulo Says:

    Descobri este blog hoje, sou de Taubaté mas vivo em Curitiba, fiquei muito emocionado com a Poesia do Ditão…Me fez recordar minhas origens…..cresci em SLP….
    Não dá mais para seguir com a exploração do solo feita pelas empresas de Celulose, uma das empresas responsáveis pela destruição do solo e subsolo do nosso vale do paraíba é a VOTORANTIM.
    Eu vivo em Curitiba, mas caso role qualquer coisa no vale posso me movimentar para ajudá-los.
    Abraços,
    Paulo Gustavo

  8. evandro Says:

    Li este poema com os olhos marejados d’agua ,dispenso qualquer comentario , o poema diz tudo e muito mais.

  9. Genildo Souza (GÊ) Says:

    Essa poesia é realmente divina fica tão afloraddo o sentimento de perda e aind sim a monocultura em nossa região fica cada vez mais forte ô mundo capitalista!!!!!!!!!!!!!!!

  10. lazaro carneiro Says:

    visite lazarocarneiroblogspot.com e veja mais sobre a monocultura da cana

    • José Safrany Says:

      De fato, Lázaro Carneiro says, como escreveu bem Genildo Souza Says (GÊ) a sociedade capitalista, ou economia de mercado, onde tudo é mercadoria, inclusive os homens para os empresários, está devastando a Natureza com suas monoculturas, agrotóxicos e envenenando-nos com seus transgênicos, cada vez mais difundidos. Veja-se, além dos eucaliptais da Votorantim e outras, os imensos desertos verdes em que se transformaram as terras de PR, SP, MT, MG, GO, TO e outras. Tudo pensando, apenas, no lucro e não em satisfazer as reais necessidades humanas.
      Se o capitalismo persistir por muito tempo, levará a humanidade à extinção, pois não conhece outra lei que a da ganância sem fim!

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